The future is female: A história da camiseta feminista que surgiu nos anos 70

The future is female: A história da camiseta feminista que surgiu nos anos 70

26 de maio de 2021 0 Por Carol

A camiseta com frase feminista ‘The Future is Female’ ressurge dos anos 70. As peças podem estar hoje na moda, mas ainda ontem fizeram história

PARIS, FRANÇA – 20 de Outubro de 2015: Cara Delevingne com o moletom “The Future is Female”. (Imagem de Marc Piasecki/GC Images)

O ano era 2015 e o mês outubro. A atriz Cara Delevingne estava em Paris quando foi fotografada usando um moletom azul marinho em letras brancas que dizia “The Future is Female” ( “O Futuro é Feminino”). No mesmo mês, a namorada de Delevingne, a musicista Annie Clark (também conhecida como St. Vincent), usou a mesma camiseta, junto com uma bolsa Chanel branca, no Chateau Marmont em Hollywood.

O moletom de US$50 de Cara tornou-se sensação no Instagram e no Tumblr, e hoje inspira fãs e pessoas do mundo todo a reproduzirem a frase em inúmeros designs, renderizá-los em bordados e até vestir crianças com o tema. Mas o moletom e a camiseta não eram produto de nenhuma marca famosa ou slogan de alguma campanha atual. Na verdade, existe uma história feminista radical por trás de tudo isso e a maioria das pessoas nem tem ideia.

St. Vincent usando a versão da Otherwild

A CAMISETA ORIGINAL THE FUTURE IS FEMALE

 Segundo o New York Times, a t-shirt foi vista pela 1ª vez em 1975. O design original da camiseta “The Future Is Female” foi feito para a Labyris Books, como slogan da 1ª livraria feminina da cidade de Nova York, inaugurada em 1972 por Jane Lurie e Marizel Rios. A fotógrafa Liza Cowan tirou um retrato de Alix Dobkin, sua namorada na época. A fotografia era para uma apresentação de slides em que ela estava trabalhando: “What the Well Dressed Dyke Will Wear.” 

“Eu estava apenas começando a ser fotógrafa, e perguntei a cinco amigos se eu poderia fazer uma história de antes e depois sobre como o visual de uma mulher pode mudar ao longo de sua vida à medida que ela amadurece,” disse Liza Cowan.

Alix Dobkin vestindo a camiseta “The Future Is Female” da Labyris Books. Foto de Liza Cowan. 1975

Parece que o slogan dura muito além da apresentação de Liza, e ao longo das décadas ressurgiu como uma declaração fortalecedora para todos, já que corpos e direitos identificados por mulheres permanecem sob ataque.

QUARENTA ANOS DEPOIS… VIROU MODA

Quarenta anos depois, a foto original foi postada no Instagram Herstory, uma conta no Instagram que publica imagens antigas de mulheres gays e lésbicas ao longo do tempo. Rachel Berks, dona de um estúdio de design gráfico e loja chamada Otherwild, em Los Angeles, republicou a foto de Alix Dobkin em sua própria conta (Otherwild), e viu uma resposta diferente de qualquer coisa antes. O conteúdo viralizou.

Desde então, Rachel se uniu com a Herstory e obteve autorização oficial da Labyris Books para criar duas coleções especiais. “Foi uma resposta tão incrível à imagem que decidi fazer a camiseta”, disse Berks. Mais tarde naquele dia, ela enviou um design para sua impressora, fez cerca de 24 peças e vendeu todas em apenas 2 dias. Ela resolveu então fazer outro lote com parte da renda (25%) para a Planned Parenthood, ONG americana de planejamento familiar.

O REAL SIGNIFICADO DA FRASE

Mas nem todo mundo sabe o real significado da frase. A causa diz respeito aos movimentos feministas, incluindo o “separatismo lésbico”, tal como explica Rachel. “A t-shirt é uma reação a uma cultura misógina e patriarcal que afeta muitas pessoas. As pessoas estão recontextualizando o momento e é mais do que apenas vestir um slogan ou uma frase hoje. Já vi várias mulheres e homens transexuais, mães solteiras que têm filhos com a estampa no peito. ‘The Future is Female’ é sobre um significado maior e que realmente ressoa junto as pessoas”. A própria camiseta de Cara Delevingne veio da loja de Rachel.

Quem nunca se deparou com essas imagens pela web? Basta dar um scroll pelo Instagram…

A camiseta é uma peça universal. Ela também nos liga a sonhos e ideais. Como é uma roupa mais simples, mais direta, também oferece uma integração maior com o corpo, e participa ativamente de movimentos ecológicos, da luta pelo respeito negro, das mulheres. Mas vestir e honrar o que se leva no peito, nem sempre é fácil.

OTHERWILD X CARA DELEVINGNE

A própria Cara Delevingne viu o sucesso da blusa em seu Instagram e resolveu simplesmente copiar a Otherwild e vender as suas. A Otherwild, que possui licensiamento, não ficou nem um pouco feliz, nem as consumidoras da marca, que começaram a enviar mensagens como: “Não há respeito com os princípios éticos. Nenhum sentimento de vergonha, nenhuma consideração feminista sobre a propriedade da empresa. É assim que você apoia uma causa? Este não é o futuro feminino!” Assim, Delevingne, para amenizar a situação, afirmou que toda renda obtida com as vendas das camisetas seria revertida para a ONG Girl Up.

As camisetas de Rachel, 40 anos depois, levaram seu negocio a outro status

A Otherwild desde então só cresceu e desenvolve várias outras estampas que circulam entre o tema. Atualmente, o espaço de Rachel é estúdio, loja, espaço para workshops e eventos que vão de leituras e saraus a performances, lançamentos e festas. Agora, por conta da frase da pequena livraria de NY, estão em dois pontos físicos, Los Angeles e Nova York, além do online, a parte mais robusta do business.

Rachel criou um ambiente inclusivo, expansivo e fluido de expressão de gênero, identidades e feminismos. Apoia a libertação, e “abraçamos nossas irmãs e irmãos trans e pedimos o fim da ideologia patriarcal, dominação, opressão e violência”. E diz que ainda tem uma missão: a de ser uma voz para a comunidade gay e às mulheres.

Liza em 1975 e em 2015 vestindo a camiseta original e a da Otherwild

Liza Cowan conta que não sabe o que fazer com a informação até hoje de que a camiseta se espalhou pelo mundo. “Acho que o slogan é ótimo e adoro que as mulheres estão vestindo. É uma espécie de um apelo à guerra e uma declaração de fato”, diz ela.

Assim como Liza, Raquel e Otherwild, a El Cabriton realmente acredita que “O Futuro Feminino” é o passado, o presente e o futuro, e é uma linguagem que ressoa.