Como a quarentena inspira diferentes artistas independentes? Eles nos respondem

Como a quarentena inspira diferentes artistas independentes? Eles nos respondem

30 de abril de 2020 0 Por Carol

Não precisamos explicar que o mundo está passando por uma pandemia pelo Covid-19, e assim se faz necessário a quarentena. A última vez que a OMS (Organização mundial de saúde) declarou isso foi em 2009 para o H1N1. De lá pra cá muita coisa mudou, inclusive o modo que artistas e marcas trabalham e se expõem na web e nas redes sociais.

Em decorrência do coronavírus, cidades foram impactadas, negócios estão tendo que se reinventar, pessoas estão aprendendo que 90% das reuniões poderiam ter sido um e-mail, e os artistas, como estão sendo impactados pelo isolamento social? Como andam as criações?

Conversamos com Affonso Malagutti (bordados), Fernanda Peltier (criativa/arte digital) e Felipe Marques (colagens e ilustrações digitais) que nos contaram um pouco mais sobre suas quarentenas, deram algumas dicas e mostraram alguns de seus trabalhos feitos durante esse período. Vem com a gente:

Anoiteceu em 2020. – @felipesmarquesbrand

QUARENTENA E A CRIATIVIDADE

O que mudou na sua rotina de trabalho, criativamente falando, durante a quarentena? 

Affonso: Na verdade eu senti um certo bloqueio criativo durante a quarentena. Estar em casa nesse período me fez perceber o quanto a rua e as interações sociais estimulam a minha criatividade. A saída que eu encontrei foi me dedicar a projetos antigos que até então eu não havia tirado do papel por falta de tempo.

Fernanda: Meu dia a dia sempre foi corrido e segue sendo assim mesmo em quarentena, porém uma coisa que mudou foi eu ter mais tempo para consumir referências, novidades, acompanhar criações que inspiram em diferentes âmbitos. Esse tempo que adquiri é o que eu normalmente gastava em deslocamento para a agência, reuniões e afazeres; e o que gastamos em filas, em esperas, etc.

Consegui assim exercitar minha criatividade com projetos pessoais, há 12 anos venho trabalhando em agência e com diferentes marcas e nessa quarentena, e ganhei uma cliente especial: eu mesma. Tenho idealizado e criado projetos para mim, sem alterações nem rebriefings rs. Nunca imaginei que fazer um projeto para nós mesmos poderia ser tão ou mais gratificante do que ter feito ‘’aquele case que temos orgulho de contar’’.

Janelas abertas – @felipemarquesbrand

Felipe: No inicio da quarentena, devido ao desgoverno e as incertezas, tive um grande bloqueio criativo. A ansiedade com a situação, a quebra da rotina de trabalho e a falta de interação não virtual com meu ciclo social afetaram meu lado criativo. Contudo, passando alguns dias, permiti me desligar das coisas que estava acontecendo, ao menos por alguns períodos do dia, e viver no meu universo particular.

Um dos privilégios em ser autônomo é poder trabalhar em casa nesse período de isolamento, o que me permitiu experienciar uma rotina nova de criação. Consegui focar em projetos antigos, experimentar novas técnicas sem a necessidade da cobrança de produzir dentro do prazo, meu processo criativo ficou mais espontâneo e não precisei me ater aos horários comerciais.

Além de tudo isso, o fato de não termos acesso a determinados materiais – por conta do comércio fechado – faz com que nos desdobremos para criar novas tintas, redescobrir superfícies para trabalhar, reinventar técnicas e transformar as coisas que estão ao nosso alcance.

Em tempos de isolamento, olhemos pro céu e para a vista das nossas janelas. @felipemarquesbrand

Teve alguma peça em especial que criou ou surgiu disso tudo?

Affonso: Eu pratico bordado manual há cinco anos, e nesse período de quarentena eu pude me dedicar a uma técnica que eu nunca havia explorado anteriormente. Eu me apaixonei por ela e já produzi alguns bordados em ponto russo usando ilustrações que estavam guardadas.

Felipe: Várias obras novas surgiram durante a quarentena. Estar “preso” em casa me fez sonhar e pensar muito em janelas. Na vista das minhas janelas de casa, janelas da alma, do pensamento, da imaginação… Dessa forma, comecei a criar uma série de obras com essa temática.

As ilustrações digitais culminaram em um mural que estou finalizando na parede do quintal. O anseio pela rua, pela rotina, pelos amigos, fez com que qualquer vislumbre do além casa se tornasse um devaneio lúdico ansiando para ir pro papel.

Fernanda: Um projeto pessoal que surgiu em meio a quarentena meu foi o The Home Postcards, que responde essa minha nova dedicação. Certamente, cartões postais costumam ser os que trazemos para casa após uma viagem empolgante e inspiradora. A ideia foi tornar os cartões postais ainda mais memoráveis, pois capturam o momento ímpar e singular em que estamos vivendo hoje, ‘presos’ e transformando cada cômodo das nossas próprias casas em viagens a parte.

O The Home Postcards parodiou os famosos cartões postais de viagens para enfatizar a nova realidade em que todos vivemos. O projeto foi colaborativo com fotos de cômodos das casas dos meus amigos ao redor do mundo; a medida que fui enviando digitalmente os postais com as fotos, novos amigos quiseram também receber um postal.

Os bordados em ponto russo por Affonso Malagutti – @affonsomalagutti

Se pudesse dar uma dica para as pessoas neste período, qual seria? 

Fernanda: Que elas façam algo para si mesmas, experimentem algo novo que as deixem feliz, tentem novas habilidades, pintar um quadro, fazer uma colagem, escrever uma história, tocar um instrumento… Tenho certeza que cada um de nós tem capacidade de desenvolver projetos que inspirem outras pessoas com suas ideias e motivem a também criarem seus próprios projetos.

Affonso: Caso você se encontre em um momento de estagnação criativa, assim como eu, tente colocar em prática projetos antigos. Mas o que eu acho mais importante nesse momento é não se cobrar. Se der, crie. Se não der, aproveite o tempo para fazer qualquer outra coisa, ou simplesmente não fazer nada. Tá tudo bem não ser produtivo durante a quarentena, priorize a sua saúde mental.

Affonso também envia seus personagens prontos bordados para todo o Brasil!

Tem algum curso, filme, livro, artista, que você recomenda para estes tempos que estamos vivendo? 

Affonso: Eu indico as visitas online a diversos museus e espaços artísticos ao redor do mundo. Durante a quarentena eu já visitei virtualmente o Guggenhein de Nova York, o Museu Frida Kahlo no México e o Museu Van Gogh na Holanda, por exemplo. 

Affonso também desenvolveu kits para as pessoas comprarem o risco e bordarem em casa. Ele é enviado por email, já dimensionado pra bastidores de 16 e 20cm. Você imprime, transfere pro tecido e borda!

Fernanda: O último filme que assisti foi Jojo Rabbit ( Taika Waititi), uma ousada sátira de época ao nazismo que contribui através de um humor humano e inteligente para que o assunto não seja esquecido. O filme traz referências de Charles Chaplin em o icônico filme ‘’O Grande Ditador’’, a trilha traz o que tocava nas paradas nazistas como Os Beatles em versão alemã, Roy Orbison e David Bowie; que deixam o filme tão leve que horas esquecemos que se trata do nazismo.

O The Home Postcards parodiou os famosos cartões postais da era de ouro das viagens para enfatizar a nova realidade em que todos vivemos.


A estética lembra um dos meus diretores prediletos, o Wes Anderson, em especial a estética de Moonrise Kingdom (2012), e há também referências da arte escondidas no longa, como a mudança radical na paleta, uma quase-referência ao “período azul” de Pablo Picasso em uma das cenas mais tensas de JoJo Rabbit. Em tempos de políticas polarizadoras em que o nazismo segue com traços fortes, tal obra é um deleite a refletirmos e questionarmos o amor ao próximo em um filme cheio de referências e inspirações!

Felipe: Usei o tempo em casa para me reinventar e aprender estudando online. Durante a quarentena várias escolas e empresas estavam oferecendo cursos gratuitos, além das lives de artistas com dicas e técnicas incríveis. Descobri os cursos da Faber-Castel, voltados para criatividade, que foram liberados gratuitamente nesse período de isolamento. Aproveitei também para pesquisar e interagir, através das mídias sociais, com novos artistas e entender como “estar recluso” os afetavam.

Ainda para alimentar minhas criações mais lúdicas, foquei nas animações como os animes do Studio Ghibli estão disponíveis na Netflix para assistir e ajudar a me transportar pra longe dessa realidade. As animações do Hayao Miyazaki trabalham com um conceito muito importante para esse momento, a questão do vazio, de parar para contemplar o que está a sua volta.

Tem alguma camiseta da El Cabriton que te representa neste momento?

Affonso: Acho que temos que encarar a frase “não se compare com os outros, você é único” como um mantra até o final do isolamento social.

Felipe: A camiseta que me representa nesse momento é uma das estampas mais recentes, feita em parceria com o grupo Francisco el Hombre, em homenagem a música “Travou”.

Fernanda: Apenas Stay Home Club.

el cabriton camisetasPowered by Rock Convert