Malfeitona, a tatuadora de traços genuínos.

Malfeitona, a tatuadora de traços genuínos.

25 de junho de 2019 0 Por senorelcabriton

Em Boston, nos Estados Unidos, existe um museu que se destaca por ter um exposição apenas “artes ruins”. É o Moba, o Museum of Bad Art, que foi criado quando um vendedor de antiguidades encontrou em 1994, em uma lixeira da cidade, a pintura do retrato de uma senhora de vestido azul. Interessado apenas na moldura, ele levou a obra para casa e mostrou para um amigo. 

Esse amigo não só ficou com a peça como iniciou uma coleção de arte feia com ajuda de sua mulher e outros amigos. Vinte e quatro anos depois, o Moba tem duas galerias físicas e quase 800 obras únicas em seu acervo – diversas das quais também são retiradas do lixo.

Divertido, interessante e curioso, talvez por isso o museu faça tanto sucesso até hoje. Mas a arte ‘malfeita’ para alguns também tem o seu critério, ela deve ser autêntica e por isso que nos chama tanta atenção. 

No Brasil, uma artista tem feito sucesso com suas tatuagens exatamente por estar indo na contramão de qualquer tatuagem perfeitex em tempos de Instagram. A baiana Helen Fernandes, que é mais conhecida como Malfeitona, é a dona de desenhos em estilo no mínimo incomuns, chamados no exterior como Ignorant style

Carol Moré, do FTCMag, conversou com ela, pra saber como toda essa história surgiu. Vem com a gente:

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Imagem: fotógrafa e cineasta Juliana Almeida

FTC: Helen, me conta há quanto tempo cria as tattoos? 

Os desenhos nesse estilo eu crio desde que me entendo por gente e aplico a diversas coisas: desde criaturinhas de massinha de modelar, camisas para mim mesma e presentear amigos, pinturas, bordados, nail art nas minhas unhas curtinhas. 

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Começaram a ir pra pele pela primeira vez em 2014, mas entre 2014-2016 eu só fiz 3 (em mim mesma e em duas pessoas muito próximas e queridas). Oficialmente nos outros foi no final de 2016 que comecei a tatuar amigos e depois amigos de amigos e cresceu para fora do círculo.

FTC: Qual influência nos seus trabalhos? 

Não tem influência consciente nenhuma (nada que eu mire e pense: ‘quero fazer algo parecido com isso’, mas em meu estilo), mas as influências principais que consigo identificar são as coisas dark, a cidade e coisas fofinhas (kawaii):

1. Toda estética darkzera majoritariamente européia que consumi e admirei ao longo dos anos por curtir gêneros de metal extremo e literatura de ficção épica. Ainda dentro da parte dark, a natureza me inspira muito. Raiz de mangue, patinhas de insetos, animais peçonhentos.

2. Salvador: cresci em bairro popular, sou muito bairrista, presto muita atenção na rua, sou fascinada mesmo. Todo mundo aqui é muito artista, há um toque de personalização em tudo. Quem não tem condições de fazer arte dá um jeito, as coisas são muito não-padronizadas. É uma cidade muito difícil, um pouco agressiva, com personalidade muito forte. A galera se empenha pra se destacar. 

Eu amo as placas, amo a decoração do vendedor informal, das casas. O marketing é muito criativo. De forma direta tem muita arte de vários tipos na rua, tem arte nas pessoas, elas são muito enfeitadas. A arte, o humor desaforado e as soluções daqui me influenciam demais.

3. Sou nascida em 1990, é doido, mas a maioria das coisas voltada pra criança que não produzidas americanas ou produzida pela TVE veio do Japão. Digo que é doido porque estamos acostumados com colonialismo cultural americano, então Hollywood por Hollywood, é natural que a gente tenha Mickey. Mas é interessante que a gente tenha tido na TV aberta mais consumida majoritariamente desenho animado japonês. Anime e mangá, material escolar e todo tipo de produto infantil de personagens como Hello Kitty, jogos. Muito da expressão dos bichinhos que desenho e acho que toda influência das coisas mais fofinhas vem daí. Eu gosto muito.

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FTC: O que é arte para você e como você definiria a sua arte? 

Acho difícil falar o que é arte, não tenho formação em arte. Mas no achismo, eu acho que é uma comunicação com uma roupa. Se você fala, você tá se comunicando verbalmente e passando uma mensagem. Mas eu posso falar de diversas formas e usar artifícios linguísticos. Mesmo que a mensagem seja a mesma, a roupagem é diferente e isso desperta sentimentos diferentes tanto em quem tá emitindo a mensagem como em quem tá recebendo. 

Acho que da mesma forma que comida e sol são importantes pro corpo, arte é uma coisa essencial pra mente. Não tem nem sentido a vida sem amor, não tem sentido a vida sem arte. Não sei como eu definiria minha arte, fico até sem graça de falar “minha arte”. Só sei que é algo que me satisfaz muito, que é bem fácil de sair de mim porque é muito “de verdade”, é isso aí mesmo. 

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Não foi pensada pra ser assim. Eu gosto muito do feedback das pessoas, muita gente me diz que acha divertido e fica feliz, eu gosto de poder representar coisas.  

FTC: Com o que você se inspira no dia a dia?  

Acho que respondi um pouco na parte de influências, mas me inspiro muito em tudo da cidade, nas pessoas, na criaturas da natureza, jogos, desenho animado.

EU AMO A INTERNET, ela me mostra muita coisa mesmo que gosto de ver na rua, e em ruas que nunca fui, mesmo quando tô em casa.

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FTC: Hoje a Malfeitona vai além da tattoo. Tem loja e produtos oficiais. Fala mais sobre isso! 

Na verdade ela sempre foi além, mas a tatuagem que me tornou conhecida porque as pessoas ficam muito chocadas que as pessoas coloquem permanentemente certo tipo de arte no corpo. É também o que mais me sustenta financeiramente. Mas sou basicamente um blend de pragas urbanas porque além de tatuadora de estilo marginalizado, faço trabalhos como ilustradora (já fiz pro We Transfer, Estadão…), dou cursos e oficinas (coach? Haha NÃO), e sou influenciadora digital. 

Também sou pesquisadora CNPq e pesquiso justamente a união disso tudo. A loja e os produtos são o que mais dá trabalho e que menos paga, mas é muito gratificante. Eu amo produzir e criar os produtos, e pessoas que não curtem tattoo (ou que curtem mas querem mais) podem ter e apoiar. Eu sempre fui muito fashionista apesar das mil críticas à indústria da moda, então pegar camisas e bonés e bolsas que eu fiz nas mãos, cheirar, ver alguém usando é muito muito gratificante! 

Minha formação em engenharia e ter trabalhado com gestão, administração e planejamento ajudam DEMAIS na parte de gerir, legalizar e organizar minhas atividades e produção.

Cenário e Figurino Nana – @ouvindonana

FTC: Você imaginava sua vida assim? Criando arte autoral? O que vem pela frente?

Não imaginava mesmo! As vezes eu até choro de felicidade quando penso em tudo, sério. Antes parecia que minha vida era no meu pouco tempo livre, e agora minha vida é o tempo todo. Tudo que eu faço hoje eu sempre fiz, mas sempre em paralelo com minhas “atividades principais”. Meus pais tiveram uma vida difícil e o começo de minha vida foi bem difícil também. Um futuro estável é muito valorizado [e cobrado] em minha família e até por mim mesma. 

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Cenário e Figurino Nana – @ouvindonana

A forma mais certa de conseguir isso é indo pelo garantido. Então sempre fui ótima aluna, fiz um curso padrãozão, comecei a trabalhar super cedo, gastava as férias fazendo cursos pra tunar o currículo ou trabalhando mais. Eu não tinha paixão por nada disso mas era o certo e eu nem imaginava a possibilidade de outra coisa. Eu era muito ignorante. 

Quando eu fiz vestibular eu nem sabia o que era publicidade, marketing, design, não fazia ideia dos profissionais por trás de um filme além de atores. Eu não sabia como funcionava a arte para além da música (essa sim sempre tive contato mais próximo, mas nunca senti que fosse pra mim), achava que arte era só pra quem tinha contatos, até hoje eu nem sei direito como vender arte, sempre segui ordem, fui assalariada e meu trabalho não era algo que vinha de mim. 

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Acho ainda difícil demais me vender (porque é tudo tão autoral, eu tô me vendendo) e precificar e lidar com dinheiro tantas vezes. Há alguns meses fiz o cenário do palco, intervenção no figurino, projeções e arrisquei de VJ para o show de Nana (@ouvindonana) e foi um trabalho que amei muito fazer e tenho muita vontade de fazer algo nessa linha. 

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Quero aprender muito e me unir com pessoas, pois até então sempre fiz tudo muito sozinha e acho que pode ser massa. Estou aberta a tudo, com vontade de fazer tudo, muito apaixonada mesmo!

malfeitona

Para seguir: No Instagram: @malfeitona

O site: http://malfeitona.com.br/

Este post foi criado em parceria com o FTCMag. Todo mês você encontra essas e outras matérias incríveis por aqui! Acompanhe!

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