Penúltima fachada El Cabriton! O tempo, a mudança e suas formas, por Nazura

Penúltima fachada El Cabriton! O tempo, a mudança e suas formas, por Nazura

28 de setembro de 2021 0 Por Carol

Penúltima fachada da El Cabriton na Rua Augusta (essa é a de nº 130!) e quem comanda é Lya Nazura, artista multidisciplinar de 23 anos, líder criativa da Descolonizarte e editora de arte da Revista AzMina. Residente da zona leste da cidade de São Paulo, Lya tem foco conceitual no pensamento decolonial e perspectiva afrofuturista.

Seus trabalhos contam com uma ocupação artística realizada na RedBull Station; um curta metragem que dirigiu; ilustração para as redes sociais de marcas e personalidades como Emicida, Netflix, Spotify e Sony Music, entre outros.

Convidada para ilustrar com uma obra autoral a fachada da El Cabriton, Nazura contou um pouco sobre seu envolvimento com a arte. Ela começou a desenhar desde muito nova, e a memória artística sempre foi muito presente em sua vida. Durante o percurso da vida, continuou a abastecer sua rotina com inspirações visuais, e quando foi escolher o que estudar, seguiu esse movimento.

Nazura se formou em Comunicação Visual na ETEC e lá iniciou sua pesquisa em ilustração e o desenvolvimento de uma identidade artística, expandindo conceitos e poéticas de criação. 

Sempre dando destaque para o que considera autêntico e importante, com sua arte, ela também ajuda a divulgar artistas racializados e periféricos, tanto no Brasil quanto em outros lugares do mundo, e a combater os diversos tipos de violência que atingem as mulheres. Conversamos com ela para saber um pouco mais sobre tudo. Confira a pequena entrevista com essa mulher poderosa em parceria com FTCMag:

NAZURA PARA EL CABRITON

Quais suas inspirações? 

Eu me inspiro muito na música e no processo de transformar essas inspirações sonoras em imagem. Jorge Ben, Oshun, Nina Simon, Sabotage, são algumas das minhas inspirações. O que me mantém inspirada também são animes. Eu adoro a construção e simbologias por trás dessas narrativas. Mas, meu processo está muito baseado em me manter aberta pra deixar as inspirações do cotidiano, do meu corpo e ancestralidade.

O que você tem lido, ouvido, visto, quais são suas referências preferidas no momento?

Eu tenho assistido muitos animes esse ano, Hunter x Hunter, Jojo’s e Dororo foram as produções que eu vi e amei muito. As animações são bem estéticas e eu gosto da fluidez que distingue cada traço.

Meus discos desse ano tem sido a Tábua da Esmeralda, do Jorge Ben e Cosmos, do jazzista japonês Yuji Ohno. Os artistas visuais que tem inspirado meu trabalho, tem sido Emo de Medeiros (Benin), Cyrus Kabiru (Quênia) e Eddy Kamuanga (Republica Democrática do Congo).

Como você define o estilo que aborda hoje em sua arte?

Eu defino como uma produção decolonial e afrofuturista. A perspectiva decolonial abre fissuras para que eu enxergue minha produção a partir de uma ótica que não parta da hegemonia, sem que a pressão de me espelhar num mercado de arte que coloca meu trabalho numa caixa não me atravesse e coloque do avesso o que me proponho fazer.

O Afrofuturismo é uma vertente múltipla, está presente nas artes visuais, música, literatura, e pensa outras concepções de temporalidade e existência a partir da experiência negra no mundo.

A pandemia afetou suas criações? 

Algo que fazia parte do meu processo criativo era o diálogo, o contato entre meu corpo e o mundo, a inspiração que as outras pessoas me traziam. O isolamento me fez ter que recalcular a rota. A falta de contato não alimentava mais meu movimento criativo e isso me manteve muito travada, além de ser muito difícil criar em uma crise sanitária. Artistas não estão desligados da realidade, é quase impossível se manter inspirado nesse cenário. 

MURAL EL CABRITON

Você já havia criado algum mural? Existe alguma dificuldade em expor seus trabalhos neste tipo de superfície? 

cerca de um ano eu tenho me jogado no grafite graças ao incentivo do meu companheiro Yan, que é artista urbano há anos e do meu professor Vander xChex, inspirações gigantescas pra mim. Depois que dei o primeiro passo e me joguei na linguagem, comecei a pegar gosto pela coisa e por grafitar nas quebradas de São Paulo, principalmente na Zona Leste, que é de onde eu sou. É uma sensação muito incrível deixar o registro do meu tempo não só no papel em casa, mas a céu aberto. Vejo a arte urbana como uma das formas mais importantes do acesso a arte.

As dificuldades que encontrei vem justamente de entender e pensar seu desenho em outro suporte. Isso requer repensar toda a construção daquele trabalho para que ele se adeque a outra linguagem. A dimensão, as tonalidades das tintas, a forma que a parede absorve a tinta, os pincéis, é tudo muito diferente, além de ser algo que envolve trabalho físico e mental ao ser criado. É um desafio, mas o tempo e a dedicação vão mostrando resultados, e é muito satisfatório ver as coisas ganhando forma e se ver tendo mais intimidade com o processo.

“Minha pesquisa artística no momento fala muito sobre o tempo, a mudança e suas formas, a conexão de corpos existentes e suas energias, a troca que fazemos com planos não visíveis. A cobra de duas cabeças sintetiza muito os processos duais que são necessários para que um movimento aconteça, a própria dialética. Para esse trabalho eu pensei em aproveitar esse conceito que ando imersa e desenvolvi um esboço já pensando no suporte. 

Enquanto você pintava a fachada, alguma cena te marcou? 

O que foi mais marcante pra mim foi ver as minas do meu trabalho indo ver o trampo, e não só pra ficar apreciando, mas ajudar a segurar a escada e todo processo. Foi muito legal!

Se você pudesse pintar qualquer muro do mundo, qual seria?

Tenho vontade em outras quebradas da América Latina.

Lembrando da coleção Azmina X El Cabriton! Além de remunerar com uma % as artistas que desenvolveram as estampas, a El Cabriton doará parte do valor da venda das camisetas para AzMina que promove campanhas, consultorias, palestras e debates para aprofundar a discussão sobre os direitos da mulher! Veja todas aqui!

Para mais, acompanhe o trabalho de Lya Nazura no Instagram e Twitter.