Conheça uma das artistas precursoras do feminismo: a italiana Artemisia Gentileschi

Conheça uma das artistas precursoras do feminismo: a italiana Artemisia Gentileschi

24 de junho de 2020 0 Por Carol

Até o final do século XX (não faz tanto tempo assim), apenas um pequeno grupo de mulheres conseguia ter reconhecimento em seu trabalho ao escolher uma profissão ligada a arte. Ser uma artista mulher era receber “belos” elogios como “essa é uma arte feita por mulheres extraordinariamente talentosas que superaram as limitações do seu gênero”.

Durante séculos, as mulheres foram excluídas dos registros da história da arte, principalmente porque os homens dominavam a disciplina. Além disso, elas não tinham a oportunidade de estudar e quando criavam objetos de caráter artístico, como tecidos bordados e vestimentas dignas de exposições, sempre eram associadas ao artesanato tendo seus valores rebaixados.

O artista e professor Hans Hoffmann “elogiou” um trabalho da pintora expressionista abstrata Lee Krasner (que era casada com Pollock) na metade do século XX com as seguintes palavras: “Isso é tão bom que não dá pra saber que foi feito por uma mulher.”

AS MULHERES NA ARTE

Foi apenas na década de 1960 que as coisas começaram a mudar um pouco. Com os movimentos pela igualdade de direitos e feministas, várias mulheres saíram em busca de estudos, e ainda se tornaram professoras principalmente nos Estados Unidos e na Europa, incentivando a representatividade feminina em museus e galerias. Esses movimentos acabaram redefinindo o caminho para muitas artistas mulheres de hoje.

Mas a história das mulheres na arte sempre foi apagada. Quem foi a primeira artista feminista da história? Por que falamos pouco sobre isso? Sabemos da vida de todos os grandes mestres, pintores e escultores… todos homens.

Recomendo então você assistir Big Eyes, (Grandes Olhos no Brasil), um filme de Tim Burton, que conta a vida da artista americana Margaret Keane, cujo trabalho foi sempre assinado (isso na década de 1950 e 1960) por seu então marido Walter Keane que passava-se por ela. Isso é apenas uma parte do que as mulheres passaram na profissão – apenas alguns anos atrás, antes dominada por homens.

Mas muito antes de Margaret Keane, temos uma das artistas precursoras do feminismo na Itália, que teve suas obras assinadas pelo pai, foi estuprada pelo seu professor e amigo da família, passou a ser considerada uma aberração, já que nenhuma mulher poderia pintar tão bem como Caravaggio, El Greco e Rubens; além de ser vista como violenta e sociopata. Ela só seria resgatada na história nos anos 70: estamos falando da grande Artemisia Gentileschi e você precisa conhecê-la!

ARTEMISIA GENTILESCHI

Artemisia Gentileschi nasceu em Roma, em 1593, e foi uma pintora barroca italiana, considerada hoje uma das mais bem-sucedidas de sua época. Sempre foi incentivada, junto com seus irmãos, desde a infância por seu pai, Orazio Gentileschi, que era um famoso pintor na cidade de Pisano.

A jovem começou a carreira no ateliê do pai, numa época em que esse era o único local possível para que uma mulher aprendesse a pintar. Assim, se tornou a 1º mulher a ser membro da academia de pintura de Florença.

Susana e os Anciões, seu primeiro trabalho, em 1610. Acredita-se que Artemisia tenha pintado a cena que se tornou emblemática em sua vida pelo menos 4 vezes. A obra foi atribuída a seu pai

Com apenas 17 anos, ela demonstrava um realismo digno de Caravaggio. Em 1611, seu pai trabalhava com Agostino Tassi, artista querido pelo alto clero do Vaticano, ao decorar os cofres do Casino delle Muse, dentro do Palazzo Pallavicini-Rospigliosi, em Roma. O pai de Artemisia havia contratado Tassi para ensinar a jovem em particular e enquanto lhe dava aulas, ele a estuprou, a violentou, junto com Cosimo Quorli como cúmplice. Artemisia demorou para ter coragem de denunciá-lo.

Artemisia continuou a ter um relacionamento com Tassi, na esperança de que um casamento pudesse restaurar sua reputação na sociedade, mas ele voltou atrás com a promessa de se casar com ela. Os detalhes do crime cometido em 1611 estão vivos nas transcrições do julgamento de sete meses feita por Orazio, um caso de abuso que chocou Roma na época. 

Não ser virgem era o fim do mundo, “mercadoria estragada” para qualquer potencial noivo. Nove meses após ter sofrido abuso, quando soube que Tassi não se casaria com Artemisia, Orazio prestou queixa contra ele.

Artemisia passou por um exame ginecológico, feito por duas médicas obstetrícias experientes em pleno tribunal, para atestar a verdade do testemunho. No fim, Tassi foi condenado à prisão durante um ano, mas nunca cumpriu a pena, o caso teve a sentença anulada. O que ela passou acabou influenciando a sua arte.

Autorretrato tocando violão, 1615 e 1617. Óleo sobre tela

A ARTE IMITA A VIDA

Após o julgamento, Artemisia se tornou bastante conhecida – mas não de forma positiva. Orazio organizou um casamento para que Artemisia “recuperasse sua dignidade aos olhos da sociedade”. Dois dias depois da condenação de Tassi, ela se casou às pressas com o pintor Pierantonio Stiattesi por pura convenção social e trocou Roma por Florença.

Depois de um tempo, a artista experimentava um momento de sucesso. Artemisia já havia começado a pintar figuras femininas fortes, inspirada tanto pela Bíblia quanto pela mitologia, mas agora tinha uma perspectiva diferente, a feminina.

Tinha um bom relacionamento com os grandes artistas da época, ganhou respeito de muita gente influente da sociedade e até contato com Galileo Galilei, como sugere uma carta para o cientista em 1635. Era também muito admirada pelo sobrinho de Michelangelo. Mesmo assim, muitas de suas belas obras continuavam creditadas ao seu pai. Foi depois da agressão de Tassi que sua abordagem na pintura tornou-se ainda mais crítica.

Em suas telas, é possível identificar características do estilo de Caravaggio como o realismo e o uso dramático do chiaroscuro, técnica de pintura caracterizada pelo jogo de sombras e da luz, contrastes de cores claras e escuras.

Ela também é reconhecida por, durante o renascimento, realizar um autorretrato que a representava como a alegoria da pintura, algo que os pintores homens não poderiam fazer, já que a figura sempre foi representada por uma mulher.

Autorretrato como Alegoria da Pintura, entre 1638 e 1639. Óleo sobre tela

Muitos estudiosos elevaram Artemisia ao status de ícone feminista pelo seu sucesso como artista em um campo dominado por homens. Ela é bem conhecida por sua obra “Judite Decapitando Holofernes“, trata-se de seu quadro mais famoso. A tela seria uma metáfora autobiográfica — e, muito provavelmente, uma espécie de vingança, do estupro por seu professor, o italiano Agostino Tassi.

“Judith decapitando Holofernes” – entre 1612 – 1613

Apenas nos anos 70 o movimento feminista a “redescobriu” como um de seus ícones, o que significa que ainda há muito que explorar sobre sua biografia e obra. Muitos historiadores dizem que ela mesma não gostaria que a colocassem nesse lugar de vítima, já que sua luta estaria ligada a violência que sofreu. Artemisia seria muito mais do que a própria tragédia.

A curadora de artes Maria Cristina Pereira, do departamento de História da FFLCH – USP, especialista em história da arte e representação de gênero, fez uma bela análise para a revista Marie Claire e por fim disse: “Artemisia Gentileschi foi uma mulher que, no século 17, escreveu para seu patrão homem: ‘Eu vou lhe mostrar do que uma mulher é capaz’. E mostrou”.

Artista “subverte” cena bíblica envolvendo Susana

Pintando, Artemísia conseguiu ressignificar o seu mundo. Ao colocar mulheres fortes dentro dos seus quadros, a pintora italiana atingiu seu objetivo: entrar para a História da Arte ser aceita na Academia de Belas Artes ao lado de nomes como Michelangelo e Vasari, tornou-se ainda uma das mais importantes pintoras do período barroco. Além disso, mostrou toda a sua força como mulher – e nos inspira a continuar.

“Enquanto viver, eu vou ter controle sobre a minha existência.” – Artemisia Gentileschi

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