A fachada 125 ficou incrível! Conheça os artistas: Lanó + Consp

A fachada 125 ficou incrível! Conheça os artistas: Lanó + Consp

16 de janeiro de 2020 0 Por Carol

Para fechar o ano de 2019 unimos artistas que a princípio tinham estilos diferentes, mas que juntos se complementaram de uma forma incrível. Conheça um pouco mais sobre a fachada 125 por Lanó + Consp!

Flores, ornamentos, traços orgânicos e femininos formam as pinturas e os murais criados pela dupla Lanó, que é formada por Juliana e Carolina; enquanto a temática afro, a luta anti-racista fazem parte da vida de Thiago, mais conhecido como Consp, desde a adolescência.

Carol e Juliana se formaram juntas na faculdade de artes em 2012 e dois anos depois resolveram se unir para criar ilustrações e murais. Nesse processo, e depois de muito estudo, criaram um estilo em que hoje, seus traços se misturam tão bem que muitas vezes elas mesmas não sabem identificar quem desenhou o que. 

Já Thiago, sempre foi engajado através do Hip Hop em seu bairro (Perus – Zona noroeste de SP). Da adolescência até a vida adulta foi levando o graffiti como hobby e tinha trabalhos de carteira assinada. Depois de 8 anos como designer gráfico em empresas, aos 27 decidiu que não poderia chegar aos 30 sem ter tentado investir em sua carreira como artista.

No mesmo ano do surgimento da Lanó, Consp decidiu colocar a temática afro nas ruas, estudou sobre o assunto e desenvolveu diversas maneiras sobre como viver de arte na cidade reacionária de São Paulo.

Dessa mistura nasceu uma das fachadas mais lindas que a El Cabriton já teve em sua loja em dezembro de 2019, digna de um presente de Natal! Carol Moré do FTCMag conversou um pouco mais com os artistas para saber suas inspirações. Vem com a gente que vale a pena demais:

ENTREVISTA LANÓ + CONSP

FTC: Vocês já haviam pintado algum mural? Existe alguma dificuldade em expor seus trabalhos neste tipo de superfície?

Lanó: Já pintamos murais há 5 anos, mas cada muro ou parede nova tem uma especificidade e traz um novo desafio e aprendizados. No início, quando começamos a mudança de suportes do papel para a parede foi um baita desafio. É uma outra forma de pensar a composição, os materiais, a forma como seu corpo se comporta na hora de pintar é totalmente diferente. Você usa o corpo inteiro pra fazer um traço. Com a prática fomos aprendendo muito e esse aprendizado nunca acaba, as possibilidades são inúmeras.

Consp: Sim, já tinha pintado outros murais. Não tenho problema em pintar paredes não, me sinto bem a vontade, se estiver numa altura aceitável do chão (rs).

Imagem por Consp

FTC: Podem me contar como é o método de trabalho neste caso? Faz rascunho?

Lanó: Nós nem sempre trabalhamos com rascunhos, se é um trabalho mais simples e que já estamos acostumadas a fazer conseguimos ir direto pra parede sem problemas. Neste caso da El Cabriton, o rascunho era bem importante por ser uma fachada grande onde queríamos experimentar bastante o uso de cores, mas principalmente por ser um trabalho em parceria com o Consp.

Nós já havíamos combinado mais ou menos que ele faria as personagens e nós entraríamos com a parte do fundo, então criamos um rascunho e enviamos pra ele encaixar a parte dele com achasse melhor, foi uma parceria que fluiu muito bem e adoramos o resultado.

Consp: Geralmente faço rascunhos pra interagir da melhor maneira com a parede, não fico preso a que fique exatamente igual ao papel, mas sim que a proporção fique igual ao que planejei!

Imagem por Consp

FTC: Como vocês definiriam o seu estilo?  

Lanó: O estilo do nosso trabalho é bem gráfico, nossa principal ferramenta para criar imagens é a linha. Podemos dizer que ela é a essência da nossa criação. Em nossos trabalhos exploramos muito elementos orgânicos e brincamos com representação e abstração de formas da natureza. Quando começamos, nós trabalhávamos muito com o preto e branco, mas de um tempo pra cá começamos a pesquisar bastante o uso de cor e como elas poderiam se encaixar no nosso trabalho que sempre foi tão voltado para o desenho. Hoje conseguimos unir bem linhas e cores.

Consp: Acho que definiria estilo como Graffiti Character, mas não sei o nome disso nas telas! (rs) Não sei em qual movimento estético me encaixo atualmente, não é uma preocupação, tenho pensado mais em envolver e contemplar pessoas do que pensar no estilo em si.

Imagem Lanó

FTC: O que vocês tem lido, ouvido, visto, quais são suas referências preferidas no momento?

Lanó: Eu (Juliana) tenho interesses bem variados que não sei se chamaria de referências, mas acho que acabam sim interferindo na minha forma de ver o mundo. Gosto muito de ler os livros do Lourenço Mutarelli, assistir filmes de terror que é um gênero que me interessa muito. Também tenho ouvido muitos podcasts sobre assuntos bem variados, é ótimo de escutar enquanto desenho. Sou apaixonada por música, escuto coisas muito diferentes umas das outras e agora tô me aventurando na prática também aprendendo a tocar um instrumento árabe de percussão chamado Derbake hehe.

Eu (Carol), em termos de referência sou a louca do Pinterest e do fuçar no Instagram. Me perco vendo trabalho de outros artistas na internet. Não tem nada muito específico na verdade, mas fora do mundo digital eu adoro afrescos e pinturas de arabescos em prédios e igrejas. Não assisto muita coisa e bem diferente da Ju, eu fujo do terror e adoro animação. Também ouço muita música variada enquanto trabalho e atualmente gosto de ouvir o podcast Moder Love.

Consp: Os últimos livros que li foram: “Olhares negros” – Bell Hocks, “Mulheres, cultura e politica” – Ângela Davis, “Eu, Jéssica” – Jéssica Chrispim e “Cuirlombismo Literário” – Tatiana Nascimento. Todos falando sobre a questão de ser negro e o não lugar que nos é imposto.

Sobre referências visuais tenho olhado mais pra estética do Graffiti, esse ano completam 20 anos em que eu comecei a fazer e pretendo voltar a pintar mais na rua, em agradecimento/ comemoração a esses anos todos.

FTC: Na esquina da Rua Augusta, onde fica a loja, sempre acontecem várias coisas inusitadas. Enquanto vocês pintavam a fachada, alguma cena marcou? 

Lanó: As pessoas que passam sempre fazem comentários e puxam conversas com a gente, é sempre bastante divertido. Acho que são várias pequenas conversas que marcaram, é uma parte muito legal de pintar na rua.

Consp: Acho que o que mais me marcou foi um senhor que abordou a Juliana dizendo que ela “era a prova que com uma ideia na cabeça e um pincel na mão, não precisava trabalhar”, mas estávamos ali trabalhando. Ainda é difícil da galera entender que pintura é uma coisa séria, que é nosso trabalho e isso pode sim ser nosso ganha pão.

FTC: Se você pudesse pintar em qualquer muro do mundo, qual seria?

Lanó: Eu, Juliana, tenho o sonho de pintar na Armênia. Minha família veio de lá e cresci muito inserida na comunidade da diáspora aqui em São Paulo, tenho uma admiração enorme pelo país e pela sua cultura. Poder deixar uma pintura minha lá seria incrível..estamos trabalhando nisso.

Eu, Carol, seguindo um pouco do sonho da Ju também amaria levar nosso desenho pra Portugal que é de onde são meus avós. Acho que tem algo muito bonito em deixar seu trabalho em um lugar em que você tem origens, mas sinceramente eu toparia qualquer lugar! Adoro expandir nosso trabalho! 

Consp: Hoje se eu pudesse escolher um muro do mundo pra pintar, não iria longe, seria a lateral do prédio em que trabalho atualmente. 

Nós agradecemos imensamente o trampo e carinho em nossa fachada <3

Siga os artistas:

https://www.instagram.com/consp/ e https://www.instagram.com/lano_art/